terça-feira, 21 de maio de 2013

Saudade

"Tentei impedir a saudade de viajar, mas ela não me ouviu! ...Fez suas malas, e partiu para onde eu deveria estar. Agora estou aqui, lembrando de quem a saudade me fez encontrar."

(Gentil Buratti Neto)

Felizes para sempre

Ser feliz ao lado de quem você ama, não significa que você precisa viver uma vida emocionalmente condenada a prospectiva do riso. Durante muito tempo, fui convencido pela ideia do "Felizes Para Sempre" que os livros sempre nos trouxeram, mesmo que com outras palavras. Eram histórias de amor, romance, aventura, ação, entre outras que sempre acabavam no já tradicional felizes para sempre que até mesmo o fim de novelas parecia estar condenado a assumir.

Finais felizes, parecem ser um roteiro que obrigatoriamente precisa ser seguido para alcançar o sucesso de vendas. Mas sempre que eu terminava de ler a história dos livros que eu adquiria, ficava envolvido por inúmeras perguntas que me conduziam a um único caminho: O que acontecia depois do fim?

Tive sorte de alguns livros terem continuação. Isso me confortava toda vez que eu abria a primeira página do próximo livro da coleção, mas logo que chegava ao fim, voltavam todas aquelas perguntas que insistiam em permanecer quando eu chegava ao final das leituras.

Começava um dilema que já era constante, antes mesmo de eu conhecer o significado das palavras. Os autores insistiam em contextualizar o "felizes para sempre". ..Mas porquê eles não podiam deixar no ar a continuação de seus enredos, como o fim de um dia tão comum aos meus? Talvez se eles escrevessem que ao anoitecer, o dia terminava tão normal como todos os outros, seria mais fácil entender que ali, a vida seguiria sem a obrigatoriedade da felicidade plena que eles desenhavam a cada fim de história.

Ainda para ajudar, vem o poeta dizer em uma música linda: "Que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero." Parecia que era conspiração contra tudo o que eu acabara de ler. Surgia ali, uma nova pergunta, que resumia todas as outras: Como ser feliz para sempre, sem o riso ser obrigatório e constante?

Foi aí então que as perguntas que me perseguiam começaram a encontrar o seu lugar dentro de mim. Cada uma no seu devido lugar, como se todas elas já soubessem onde deveriam estar.
Como isso aconteceu?

Quando comecei a fazer das perguntas, o motivo pelo qual eu gostaria de ser feliz. E foi neste momento que eu descobri que o felizes para sempre, não se obriga ao riso que eu julgava ser a única forma de ser feliz. E muito menos, que o felizes para sempre decretava o fim... Mas a continuidade que eu ainda não estava habituado a viver.

Descobri então que a verdadeira felicidade, é o motivo pelo qual você deseja viver ao lado de quem o seu coração quer sempre por perto, sem a dependência de um sorriso no rosto, sem a obrigação de ser a continuidade de uma comédia, sem medo de errar e ser perdoado, sem ser julgado pelo seu dia não ter acabado tão bem como gostaria, mas acima de tudo...

...Estar ao lado de quem lhe faz feliz!

...Para sempre.

(Gentil Buratti Neto)

sábado, 11 de maio de 2013

Carta à minha mãe

Ninguém nunca lhe pagou nada. Nenhuma recompensa foi lhe oferecida. Nem moedas, nem promoção a cargos superiores, muito menos o reconhecimento que sempre lhe foi tão digno.
 
Preferiu o silêncio. Uma vida oculta, para que eu pudesse crescer. Preferiu as dores que eu sempre lhe causei, e escolheu se abster, para que eu pudesse ter.
 
Doutora em conhecimentos de vida e na cura das minhas feridas, sempre soube como ninguém resolver as complicadas equações matemáticas dos meus problemas e quando minhas dores eram inevitáveis, havia certeza de cura num cuidado que milagrosamente regenerava um joelho arranhado, um osso quebrado, ou até mesmo um coração dilacerado.
 
Sempre foi o conselho certo nas minhas horas mais incertas. A coragem que eu precisava para tentar mais uma vez, e descobrir que onde eu enxergava um limite, nada mais havia que um pequeno obstáculo.
 
Você sempre teve a mesma idade que eu... Foi bebê para que eu pudesse brincar com aquela colherzinha que você transformava num dos mais belos aviões que já conheci... Foi criança para que a gente aprendesse a caminhar juntos... Foi jovem para que eu pudesse chorar ao seu ombro, e o abraço que as vezes precisei para me esconder do resto do mundo.
 
Você deu o primeiro passo da minha vida, e me ensinou que para realizar até mesmo os sonhos mais impossíveis, é preciso continuar caminhando.
 
Algumas vezes, cheguei até mesmo imaginar que havia esquecido de mim... Mas reconheço que sua sabedoria precisou deixar eu me sentir livre para que eu pudesse descobrir o amargor de uma vida tão diferente do seu colo consolador.
 
Me repreendeu severamente, quando eu jurava ter certeza das minhas descobertas desordenadas. Suas palavras fugiam quando eu precisava que você concordasse com meus desejos tão cheios de bajulos. E como meus melhores amigos, era você mesma quem me procurava para explicar a complexa relação entre o querer e o poder.
 
Eu sempre lhe vi tão cheia de disposição enquanto nos divertíamos, e a nossa idade avançava. Porém, certo dia, vi aquela menina que cresceu junto de mim, chorar pela primeira vez. Parecia que não era real... Eu nunca havia lhe visto chorar antes.
 
Mas para o meu espanto, você estava lá, num cantinho do sofá da sala, sozinha, banhada em lágrimas.
 
Fiquei tão assustado quanto você, que secava suas lágrimas como se aquilo não fizesse parte de alguém que sempre me pareceu tão inabalável.
 
Não tive coragem de sentar ao seu lado para entender os motivos que te levaram ao pranto. Saí, dei de costas, e quando estive maduro o suficiente, conduziu-me aos caminhos que lhe faziam chorar naquele dia que eu já nem lembrava mais.
 
Nossa viagem durou apenas um instante, apenas o momento de você me dizer em poucas palavras: Filho, eu te amo!
 
E foi assim que descobri que você também sentiu toda a felicidade que eu sentia enquanto me divertia. Mas com um porem a mais... Enquanto eu tinha tudo nas mãos, você se privava de todas as suas coisas para me fazer feliz. E então, aquelas lágrimas que aconteciam todas as vezes que se sentia desolada pelo pouco que sempre tivemos.
 
Mas hoje, quero que saibas que reconheço tudo o que fizestes por mim. E se o pouco que me ofereceste foi o suficiente para te levar às lágrimas, reconheças que tê-la junto de mim, sempre foi o motivo pelo qual eu estive feliz.
 
(Gentil Buratti Neto)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Coração de formiga

Já tive o coração calejado, sangrado e arranhado pelos mesmos motivos que hoje, me fazem seguir em frente. As marcas que ali ficaram, aos poucos dão contorno e forma às palavras que mansamente se derramam num pedaço de papel.

A vida se entrega à filosofia, e a poesia vai ganhando espaço num terreno tão hostil. Pois as palavras de nada valem enquanto enclausuradas. Acredito que por essência, nascemos para construir pontes, para ligar corações esquecidos. Mas as vezes, quando menos percebemos, palavras, gestos, e até mesmo o abandono destroem o caminho que serviria para nos ligar ao outro lado da margem.

Tenho me convencido de que preciso realizar um trabalho igual aos que as formigas fazem. Para alcançar o outro lado, vou equilibrando nos ombros uma carga até mesmo maior do que eu. Vou juntando os pedaços, e devagarzinho, vou construindo a minha ponte. É trabalho árduo, que leva tempo e a incerteza da chegada é sempre constante.

Andei descobrindo que devo ter um coração de formiga dentro de mim. Pois onde eu me proponho chegar, às vezes, parece ser distante demais. As adversidades e obstáculos, se sobrepõe à minha frente num caminho que para os maiores, se torna tão curto. Vou trabalhando em silêncio, para não chamar a atenção daqueles que por instinto, tentam me eliminar. E para continuar acreditando, preciso usar dos meus sonhos para não esquecer que ainda, preciso construir a ponte.

Quero que minha ponte seja construída de pedacinhos de flores... Pois as formigas sabem a beleza que nelas há, e de recortes em recortes, vão colorindo seu caminho. Quem sabe algum dia, quando minha ponte estiver construída, eu deposite nela também algumas sementes das flores que mais me fascinam. Vou escolher as rosas!

As formigas sabem que não há tempo para o descanso. Trabalham dia e noite. E se elas se derem ao privilégio do sono, talvez ao final de sua vida tão curta, não tenham feito a diferença que elas precisam ser na vida daqueles que tanto precisam delas. Deve ser por isso, que meu coração não descansa a noite. Não há tempo para deixar de amar.
O tamanho dele, eu ainda não descobri, pois como nas formigas, ele não está visível a olho nu.

E assim, de pouquinho em pouquinho, vou costurando em filosofia os pedacinhos que vão dando formas à minha ponte. Se eu vou conseguir chegar ao outro lado? Eu ainda não sei. Mas o amor que existe hoje em mim, é quem me leva a seguir em frente.

E mesmo que no final dessa vida de formiga eu não tenha conseguido construir a minha ponte, vou deixar mais colorido os caminhos por onde andei, para que seja possível à quem por ali caminhar, perceber que dentro de mim, sempre bateu um coração que jamais desistiu do amor.

(Gentil Buratti Neto)