terça-feira, 21 de maio de 2013

Saudade

"Tentei impedir a saudade de viajar, mas ela não me ouviu! ...Fez suas malas, e partiu para onde eu deveria estar. Agora estou aqui, lembrando de quem a saudade me fez encontrar."

(Gentil Buratti Neto)

Felizes para sempre

Ser feliz ao lado de quem você ama, não significa que você precisa viver uma vida emocionalmente condenada a prospectiva do riso. Durante muito tempo, fui convencido pela ideia do "Felizes Para Sempre" que os livros sempre nos trouxeram, mesmo que com outras palavras. Eram histórias de amor, romance, aventura, ação, entre outras que sempre acabavam no já tradicional felizes para sempre que até mesmo o fim de novelas parecia estar condenado a assumir.

Finais felizes, parecem ser um roteiro que obrigatoriamente precisa ser seguido para alcançar o sucesso de vendas. Mas sempre que eu terminava de ler a história dos livros que eu adquiria, ficava envolvido por inúmeras perguntas que me conduziam a um único caminho: O que acontecia depois do fim?

Tive sorte de alguns livros terem continuação. Isso me confortava toda vez que eu abria a primeira página do próximo livro da coleção, mas logo que chegava ao fim, voltavam todas aquelas perguntas que insistiam em permanecer quando eu chegava ao final das leituras.

Começava um dilema que já era constante, antes mesmo de eu conhecer o significado das palavras. Os autores insistiam em contextualizar o "felizes para sempre". ..Mas porquê eles não podiam deixar no ar a continuação de seus enredos, como o fim de um dia tão comum aos meus? Talvez se eles escrevessem que ao anoitecer, o dia terminava tão normal como todos os outros, seria mais fácil entender que ali, a vida seguiria sem a obrigatoriedade da felicidade plena que eles desenhavam a cada fim de história.

Ainda para ajudar, vem o poeta dizer em uma música linda: "Que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero." Parecia que era conspiração contra tudo o que eu acabara de ler. Surgia ali, uma nova pergunta, que resumia todas as outras: Como ser feliz para sempre, sem o riso ser obrigatório e constante?

Foi aí então que as perguntas que me perseguiam começaram a encontrar o seu lugar dentro de mim. Cada uma no seu devido lugar, como se todas elas já soubessem onde deveriam estar.
Como isso aconteceu?

Quando comecei a fazer das perguntas, o motivo pelo qual eu gostaria de ser feliz. E foi neste momento que eu descobri que o felizes para sempre, não se obriga ao riso que eu julgava ser a única forma de ser feliz. E muito menos, que o felizes para sempre decretava o fim... Mas a continuidade que eu ainda não estava habituado a viver.

Descobri então que a verdadeira felicidade, é o motivo pelo qual você deseja viver ao lado de quem o seu coração quer sempre por perto, sem a dependência de um sorriso no rosto, sem a obrigação de ser a continuidade de uma comédia, sem medo de errar e ser perdoado, sem ser julgado pelo seu dia não ter acabado tão bem como gostaria, mas acima de tudo...

...Estar ao lado de quem lhe faz feliz!

...Para sempre.

(Gentil Buratti Neto)

sábado, 11 de maio de 2013

Carta à minha mãe

Ninguém nunca lhe pagou nada. Nenhuma recompensa foi lhe oferecida. Nem moedas, nem promoção a cargos superiores, muito menos o reconhecimento que sempre lhe foi tão digno.
 
Preferiu o silêncio. Uma vida oculta, para que eu pudesse crescer. Preferiu as dores que eu sempre lhe causei, e escolheu se abster, para que eu pudesse ter.
 
Doutora em conhecimentos de vida e na cura das minhas feridas, sempre soube como ninguém resolver as complicadas equações matemáticas dos meus problemas e quando minhas dores eram inevitáveis, havia certeza de cura num cuidado que milagrosamente regenerava um joelho arranhado, um osso quebrado, ou até mesmo um coração dilacerado.
 
Sempre foi o conselho certo nas minhas horas mais incertas. A coragem que eu precisava para tentar mais uma vez, e descobrir que onde eu enxergava um limite, nada mais havia que um pequeno obstáculo.
 
Você sempre teve a mesma idade que eu... Foi bebê para que eu pudesse brincar com aquela colherzinha que você transformava num dos mais belos aviões que já conheci... Foi criança para que a gente aprendesse a caminhar juntos... Foi jovem para que eu pudesse chorar ao seu ombro, e o abraço que as vezes precisei para me esconder do resto do mundo.
 
Você deu o primeiro passo da minha vida, e me ensinou que para realizar até mesmo os sonhos mais impossíveis, é preciso continuar caminhando.
 
Algumas vezes, cheguei até mesmo imaginar que havia esquecido de mim... Mas reconheço que sua sabedoria precisou deixar eu me sentir livre para que eu pudesse descobrir o amargor de uma vida tão diferente do seu colo consolador.
 
Me repreendeu severamente, quando eu jurava ter certeza das minhas descobertas desordenadas. Suas palavras fugiam quando eu precisava que você concordasse com meus desejos tão cheios de bajulos. E como meus melhores amigos, era você mesma quem me procurava para explicar a complexa relação entre o querer e o poder.
 
Eu sempre lhe vi tão cheia de disposição enquanto nos divertíamos, e a nossa idade avançava. Porém, certo dia, vi aquela menina que cresceu junto de mim, chorar pela primeira vez. Parecia que não era real... Eu nunca havia lhe visto chorar antes.
 
Mas para o meu espanto, você estava lá, num cantinho do sofá da sala, sozinha, banhada em lágrimas.
 
Fiquei tão assustado quanto você, que secava suas lágrimas como se aquilo não fizesse parte de alguém que sempre me pareceu tão inabalável.
 
Não tive coragem de sentar ao seu lado para entender os motivos que te levaram ao pranto. Saí, dei de costas, e quando estive maduro o suficiente, conduziu-me aos caminhos que lhe faziam chorar naquele dia que eu já nem lembrava mais.
 
Nossa viagem durou apenas um instante, apenas o momento de você me dizer em poucas palavras: Filho, eu te amo!
 
E foi assim que descobri que você também sentiu toda a felicidade que eu sentia enquanto me divertia. Mas com um porem a mais... Enquanto eu tinha tudo nas mãos, você se privava de todas as suas coisas para me fazer feliz. E então, aquelas lágrimas que aconteciam todas as vezes que se sentia desolada pelo pouco que sempre tivemos.
 
Mas hoje, quero que saibas que reconheço tudo o que fizestes por mim. E se o pouco que me ofereceste foi o suficiente para te levar às lágrimas, reconheças que tê-la junto de mim, sempre foi o motivo pelo qual eu estive feliz.
 
(Gentil Buratti Neto)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Coração de formiga

Já tive o coração calejado, sangrado e arranhado pelos mesmos motivos que hoje, me fazem seguir em frente. As marcas que ali ficaram, aos poucos dão contorno e forma às palavras que mansamente se derramam num pedaço de papel.

A vida se entrega à filosofia, e a poesia vai ganhando espaço num terreno tão hostil. Pois as palavras de nada valem enquanto enclausuradas. Acredito que por essência, nascemos para construir pontes, para ligar corações esquecidos. Mas as vezes, quando menos percebemos, palavras, gestos, e até mesmo o abandono destroem o caminho que serviria para nos ligar ao outro lado da margem.

Tenho me convencido de que preciso realizar um trabalho igual aos que as formigas fazem. Para alcançar o outro lado, vou equilibrando nos ombros uma carga até mesmo maior do que eu. Vou juntando os pedaços, e devagarzinho, vou construindo a minha ponte. É trabalho árduo, que leva tempo e a incerteza da chegada é sempre constante.

Andei descobrindo que devo ter um coração de formiga dentro de mim. Pois onde eu me proponho chegar, às vezes, parece ser distante demais. As adversidades e obstáculos, se sobrepõe à minha frente num caminho que para os maiores, se torna tão curto. Vou trabalhando em silêncio, para não chamar a atenção daqueles que por instinto, tentam me eliminar. E para continuar acreditando, preciso usar dos meus sonhos para não esquecer que ainda, preciso construir a ponte.

Quero que minha ponte seja construída de pedacinhos de flores... Pois as formigas sabem a beleza que nelas há, e de recortes em recortes, vão colorindo seu caminho. Quem sabe algum dia, quando minha ponte estiver construída, eu deposite nela também algumas sementes das flores que mais me fascinam. Vou escolher as rosas!

As formigas sabem que não há tempo para o descanso. Trabalham dia e noite. E se elas se derem ao privilégio do sono, talvez ao final de sua vida tão curta, não tenham feito a diferença que elas precisam ser na vida daqueles que tanto precisam delas. Deve ser por isso, que meu coração não descansa a noite. Não há tempo para deixar de amar.
O tamanho dele, eu ainda não descobri, pois como nas formigas, ele não está visível a olho nu.

E assim, de pouquinho em pouquinho, vou costurando em filosofia os pedacinhos que vão dando formas à minha ponte. Se eu vou conseguir chegar ao outro lado? Eu ainda não sei. Mas o amor que existe hoje em mim, é quem me leva a seguir em frente.

E mesmo que no final dessa vida de formiga eu não tenha conseguido construir a minha ponte, vou deixar mais colorido os caminhos por onde andei, para que seja possível à quem por ali caminhar, perceber que dentro de mim, sempre bateu um coração que jamais desistiu do amor.

(Gentil Buratti Neto)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Uma história para contar

Ontem, enquanto caminhava pelas ruas da cidade, apressado por compromissos que me levavam a um destino qualquer, fui obrigado a desacelerar o passo e olhar com mais cuidado, pois à minha frente, caminhava um casal de velhinhos.

A pressa, cedeu lugar à admiração que me colocava naquele momento, naquele lugar. Por alguns minutos, esqueci de meus compromissos e apenas admirei aqueles velhinhos que caminhavam a passos miúdos em minha frente.

No começo, tive um pouco de dificuldade até aproximar-me deles, pois eles iam a uma distância considerável de onde eu estava. Apressei o passo, e enquanto tirava o celular do bolso para registrar aquele momento, me aproximava daquele casal que, sabe-se lá quanto tempo estariam juntos.

Enquanto chegava perto, ficava imaginando o quanto a vida deve ter cobrado daquele amor que nem mesmo o tempo foi capaz de apagar. E mesmo depois de anos, ela ainda segurava a mão dele como se fossem jovens namorados. Ela deixava que dois dedos de sua mão esquerda, se debruçassem cuidadosamente na mão firme e segura daquele velho senhor já esculpido pelo tempo.

Fiquei com uma vontade enorme de conhecer mais detalhes da vida deles... Coisas como as dificuldades que eles enfrentaram juntos, as conquistas que a vida lhes proporcionara, os momentos mais felizes que marcaram sua jornada... Coisas que uma imagem ainda não aprendeu a registrar.
Mas decidi segui-los até onde nossos caminhos se desencontrassem.

Talvez, se eles tivessem me dito algo a mais do que eu imaginava, o encanto que eles me proporcionavam resumiria-se apenas no momento presente, e então, eu quiz ficar com a história inteira. É por isso que tenho me convencido de que as vezes, há mais beleza naquilo que não é dito. Pois se um amor têm explicações óbvias para ser registrado, ele corre o risco de ser apagado pelo tempo, por um jovem que se aproxima para matar a curiosidade, ou por um outro tipo de borracha qualquer.

E enquanto o tempo permitir que o amor seja vivido, espero como aquele velho casal, poder ter as mãos ocupadas, não com um lápis e um pedaço de papel, mas por outras mãos que junto de mim, também vão envelhecer.

(Gentil Buratti Neto)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Jesus escolheu você

Jesus escolheu o Seu caminho. Escolheu os espinhos, o flagelo, o cravo transpassado em Sua carne. Escolheu a morte angustiante a Lhe encurtar a respiração, e a humilhação diante daqueles que se julgaram ser maiores que Ele.

Jesus escolheu o Seu caminho. Escolheu remover a pedra que sepultava sua humanidade. Escolheu descer à mansão dos mortos, e a dor a ferir o coração de Seu Pai, que do alto Lhe abandonara à própria sorte.

Jesus escolheu espiar os nossos pecados. Escolheu as lágrimas que banharam o rosto de Sua própria mãe. Jesus escolheu trazer a dor ao coração daqueles que O amavam, e a Si mesmo.

Mas era preciso sofrer;
Era preciso ser pequeno;
Era preciso morrer!

Foi preciso dilacerar o coração de um Pai para que você vivesse!

Hoje, o flagelo que Ele causou em sua humanidade, transcende as agruras de um sepulcro que Lhe condenava a fazer escolhas.

Jesus escolheu você!

(Gentil Buratti Neto)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Eu moro em mim mesmo...

"Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas."
(Mário Quintana)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Nascemos para ser eternos

Estava lendo um livro ontem a noite e algumas palavras me prenderam no tempo em que eu estive com elas presente. Gostaría de compartilhá-las com vocês: "...você é quem decide quem vai ser eterno em você, no seu coração. Deus nos dá o dom de eternizar em nós aquilo que vale a pena, e esquecer definitivamente aquilo que não vale."

Nascemos para ser eternos. Não para sermos esquecidos com a mesma facilidade que esquecemos do almoço de dois dias atrás, pois a fome que temos é a de permanecer na vida das pessoas para sempre.

Estive pensando que amigos de verdade, não merecem ser lembrados... Porquê eles nunca caem no esquecimento. Assim acontece em nós o tempo inteiro com aquilo que chamamos de fé: Ou você vive a proposta de Jesus, ou você estará condenado a lembrar d'Ele somente quando você julgar nescessário.

Seja eterno com aquilo que realmente vale a pena! Eternize em você os abraços que recebeu, o sorriso que você compartilhou, o silêncio que já respondeu tanta coisa, e acima de tudo, o que Jesus Cristo te propõe a partir do agora.

(Gentil Buratti Neto)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Não se julgue autosuficiente

Não se julgue autosuficiente. Pessoas que se julgam conhecedoras de toda a verdade, geralmente acabam por arruinar a si mesmas. Pois na incapacidade de aproximar-se dos outros, acabam por si só destruindo tudo o que possuem... A começar pela alegria de viver.
(Gentil Buratti Neto)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Seja possível

Seja possível à quem lhe procura. Leve a alegria aos que estão ao seu redor e palavras de incentivo aos que lhe pedem conselhos.
Talvez, você pode nem perceber, mas só se aproximam de você, aqueles que vêem no seu jeito de ser um sentido para aquilo que buscam.
(Gentil Buratti Neto)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Obrigado Senhor

Obrigado Senhor por esta tristeza imensa;

Por abrir meus olhos e mostrar-me que ninguém é merecedor do meu sofrimento;

Obrigado por afugentar meus amigos quando mais preciso deles;

Por deixar-me a sós com meu silêncio quando necessito de palavras, consolo...

Obrigado meu Senhor por fazer-me tão pobre, tão precário, tão pequeno;

Obrigado por retirar-me tudo que me têm valor quando preciso de apenas alguns poucos tostãos;

Obrigado pela escassez que se põe em minha mesa;

Pelo pão que serviria para alimentar aqueles que andam famintos, mas ainda, só recebem migalhas.

Obrigado pelo sorriso sarcástico e o tom de deboche daqueles que olham para o meu rosto apenas para ferir-me com suas palavras;

Obrigado Senhor pelas horas que têm me faltado o carinho, a atenção e a mão firme de um pai que por hora, me daria segurança para que eu pudesse ficar em pé.

Obrigado por me fazer tão infeliz!

...por mostrar-me envergonhado diante de tantas pessoas com a minha crueza de espírito, minha humildade e meu tom de desabafo quase insultando-O.

Obrigado por abandonar-me nas piores mazelas da condição humana;

Por ferir meu coração toda vez que mostra-me alguém passando fome, sendo roubado, torturado, criticado, rejeitado, se perdendo num mundo onde só existe o prazer e a ganância por um pouco mais de libido;

Obrigado por derrubar-me no chão todas as vezes que sinto poder ser um pouquinho feliz...

Pois só assim, posso ver o quanto ainda tem de ser feito...

...Quanta gente também precisa do meu consolo,

...do pouco que tenho,

...da palavra que te aproxima daqueles que esperam pela tua mão para se pôr em pé outra vez,

...das moedas que eu guardava para satisfazer meus prazeres,

...do carinho que me ensinaste cultivar na ausência dos grandes amigos,

...do amor que pusestes dentro de mim enquanto tantos me insultavam,

...da humildade e do espírito tão pequeno que permitem aproximar-me daqueles a quem tanto amas;

E, principalmente, obrigado por mostrar-me que é com um coração ferido, que se chega ao céu!

(Gentil Buratti Neto)

sábado, 22 de dezembro de 2012

Ausência

"Eu só posso ficar na vida de alguém enquanto for para fazê-la bem, do contrário, sou perfeitamente dispensável."

"Se você quizer saber o valor que uma pessoa tem em sua vida, pense em perdê-la."

(Pe. Fábio de Melo)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Amigo-secreto

Estes dias me deparei com uma situação conflitante. Às vésperas de mais um final de ano, com o espírito de Natal se aproximando e o encerramento de algumas atividades, ao realizar um amigo-secreto como de costume tradicional, fiquei de frente com uma situação até então, nova.

O motivo de eu estar em conflito comigo mesmo, era o valor do amigo-secreto. Podíamos apenas comprar presentes de no máximo dez reais. E para ajudar, ainda, eu nem sabia quem seria meu amigo-secreto, já que faríamos o sorteio dos nomes e a revelação no mesmo dia. No momento em que foi definido o valor do presente, até achei bom, pois não era um valor elevado para ninguém. Ficaria fácil comprar um presente qualquer, para uma pessoa qualquer.

Mas o desenrolar dessa história não foi tão simples assim, pelo menos prá mim.

Comecei a me conflitar no momento que saí em busca do presente que eu deveria dar. Como escolher o melhor presente para um amigo que era secreto até prá mim? E, independente de quem seria, será que apenas dez reais traduzem o valor que esta pessoa tem em minha vida?

Bom, pelo menos uma certeza eu tinha: Deveria comprar o presente na casa paroquial da Igreja mais popular da cidade. Pois a mesma, tem a maior loja de artigos religiosos que eu conhecia. Assim, eu encontraria um presente de acordo com o espírito do Natal. Mais um erro eu cometi! Ao entrar na loja, senti-me como um turista abandonado à própria sorte em um mundo inteiro para descobrir. Eram muitas utilidades... Imagens, livros, pulseiras, gargantilhas, etc. O que eu faria naquele momento? O que eu procurava ali? E ainda, somente com dez reais!

Mas o primeiro passo eu já havia dado, eu estava ali! Não havia como voltar atrás, porque eu sabia que ali naquela loja, eu encontraria o que estava procurando. E de fato, eu encontrei! Mas depois de quase uma hora perdido em meus devaneios. Era excitante e constrangedor procurar um presente com aquele valor. Pois eu sabia que meu amigo secreto merece algo em que nem mesmo todo o dinheiro do mundo pode pagar... Uma amizade!

Deve ser por isso que esta troca de presentes leva este nome! Uma amizade secreta! Às vezes, secreta até para nós mesmos... Até que um dia, escolhemos como amigo, alguém que sempre esteve perto, mas estávamos ocupados demais para perceber o seu devido valor.

(Gentil Buratti Neto)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

É o silêncio que me traduz

Ando meio desajustado com todo o barulho que gritam aos meus ouvidos. Não sei se é o esgotamento de mais um ano que se encerra... Se meu corpo está começando a preferir o ritmo desacelerado esperando pelas férias que julgo serem tão merecidas, ou se a experiência do meu viver vai me guiando para um lugar onde sinto-me mais à vontade com uma reflexão.

Ando rezando baixinho, num canto do quarto, solitário na Igreja, mesmo que meus amigos estejam ao meu lado. Ando meio que... Preferindo o silêncio, a meditação, o cuidado com as palavras.

Ando meio intrigado com os meus desajustes que já não acompanham o meu mundo corrido. Estou pisando no freio, desacelerando a fala e sendo deixado prá tráz.

Ultimamente, tenho perdido o raciocínio toda vez que encontro um barulho e toda vez que vejo os olhares desatentos que não encontram as minhas palavras em meio a tantas outras. Vou sucumbindo em meio a todo esse tumulto e assim, vou me tornando desnecessário.

Outro dia, enquanto pregava num grupo de jovens o qual participo, em meio a algumas vozes que se juntavam à minha, senti a urgência de ouvir com atenção o que elas diziam. Esforcei-me, e nenhuma palavra pude reconhecer. Era um barulho baixinho. Mas capaz de merecer a minha atenção, o meu silêncio.

Senti-me perturbado ao perceber que todas as outras pessoas queriam prestar atenção no que eu dizia. Mas eu nada mais consegui dizer. Preferi o silêncio.

Ando querendo a doçura dos olhares. A melodia que o silêncio nos oferece, mesmo que sem acordes. Ando querendo a atenção daqueles que nada dizem. Ando querendo ouvir uma palavra de cada vez. Ando querendo o sossego que me traduz. Aí então, talvez eu reencontre o ritmo acelerado que me trouxe até aqui. Mas por enquanto, estou preferindo o silêncio.

(Gentil Buratti Neto)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Poesia, uma necessidade de vida

Ontem, tive a oportunidade de ver a alegria nos olhos de um amigo quando contava-me que havia acabado de criar um blog. Senti-me surpreso e feliz ao ver traduzido nele os mesmos motivos que me levaram a esta necessidade de escrever. E ao mesmo tempo em que ele revelava os seus motivos, eu percebia nele a preocupação com os cuidados que precisaria ter dali por diante.

Lembro-me de quando cursava o ensino médio, uma professora preocupada não apenas em ensinar o conteúdo de sua disciplina, nos disse que todo ser humano precisava de três coisas na vida... Uma delas, era escrever um livro. Hoje vejo esta necessidade fazer sentido quando encontro-me na companhia solitária de meus versos. De versos solitários, aos poucos, o contexto de uma poesia vai surgindo a medida em que vou me tornando parte de uma realidade que ainda carece de forma.

Vida real e subjetiva vão sendo costuradas. Vou sendo artesão das minhas próprias palavras. Vou juntando as miudezas, procurando rimas e transcendendo a minha realidade a procura de respostas. As respostas que encontro, vão ganhando espaço numa folha de papel. As que ainda não encontrei, deixo-as livres a percorrer meus pensamentos até que um dia encontrem o seu lugar em uma linha cheia de razão, ou não.

Linha após linha, vou sendo diálogo constante entre minha realidade e os versos de um coração que também precisa ser traduzido. Dizem que as palavras mais belas, são geradas no bater de um coração. Por isso, deixo-me ser conduzido aos poucos por este estímulo que me mantém vivo. Ainda há muito a ser dito, muitas perguntas ainda precisam ser saciadas e também há muito o que perguntar. Não me preocupo com o que ainda não tem resposta. Às vezes, precisamos mais das perguntas do que das respostas. São as perguntas que movem a poesia, que dão vida aos sentimentos. E quando a poesia for inevitável, ela surgirá no mesmo instante que meu coração precisará bater para me manter vivo.

E assim, em meio a esta necessidade, vou encontrando minha própria companhia... Afinal, antes da poesia encontrar seu lugar em outros corações, ela precisa ser revelada à quem a traduziu para que um dia, quem sabe, ela se torne o esboço de uma vida marcada pela fragilidade de um coração que sempre teimou em bater.

(Gentil Buratti Neto)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Me fazendo manjedoura



É chegado fim de ano. Junto dele, datas comemorativas, festas, férias e uma porção de coisas boas sujerem prosperidade e felicidade. Um novo tempo começa a gerar expectativas e a gente começa a fazer planos para um ano que desejamos ser melhor que este.

É a mística do Natal que se aproxima. É a finitude da condição humana que encontra a mesma luz daquela estrela que brilhou sobre a manjedoura onde nasceu Jesus. O antigo e o novo testamento refazem seus votos sagrados de selar a aliança ao encerrar um tempo escasso de fé e apostar todas suas fichas no menino que está por vir. Usamos nossas poucas palavras para as últimas considerações e começamos a escrever um novo Evangelho, cheio de boas-novas.

Já é tempo de enfeitar as árvores, comprar os presentes, organizar a viajem, rever a família que está distante, arrumar o presépio, etc. É tempo fértil de fazer projeções e ser berço de natalidades assim como foi aquela manjedoura. Foi na manjedoura que Jesus, ao encontrar os braços de Maria pela primeira vez, foi retirado da precariedade que o cercava e levado ao encontro da humanidade que o fez Santo. É tempo de rabiscar uma nova página, de transcender as agruras de nossas miudezas e projetar o novo testamento a partir da realidade concreta que nos cerca. Foi o que Jesus fez. Escolheu a realidade precária de um estábulo para encontrar a Santidade que lhe é própria. É por isso que reviver mais uma vez o Natal, multiplica em mim o desejo de simplicidade. Pois é na simplicidade que Jesus reencontra os caminhos que o levaram à santidade.

Por isso neste Natal, quero reviver as minhas realidades mais precárias. Quero cultivar a esperança de ver Jesus renascido onde as possibilidades parecem ser remotas. Quero viver a simplicidade do silêncio que espera o menino pela primeira vez... A ansiedade em lhe desejar prosperidade mesmo na falta de recursos e quem sabe assim, ser também encontrado pelos braços de Maria a me retirar do que um dia foi precário para revelar a santidade onde eu também fiz manjedoura.

(Gentil Buratti Neto)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Conversando com Deus

Quanto mais o tempo passa, mais convencido fico de que os mais velhos ainda tem muito a nos ensinar. São experiências de vida que não aprendemos na escola, com os amigos ou até mesmo com a conquista de uma excelente bagagem intelectual. Um exemplo disso, é o que foi publicado pelo jornalista Paulo Sant'Ana, no auge dos seus 73 anos de lúcida sabedoria, neste mesmo dia em sua coluna no jornal Zero Hora.

Segue o texto na íntegra:

"Eu sinto que tenho relacionamento com Deus.

Relação com Deus, eu já sabia que tinha.

Mas agora eu sinto que estou me relacionando intimamente com Deus.

Como é que eu sinto? Vou dar um exemplo: quando cai um objeto de minhas mãos no chão, apesar da minha terrível tontura incapacitante, eu me esforço, eu me esforço e ainda consigo com muito sacrifício juntar esse objeto.

Doem-me as pernas e os braços, as juntas, mas eu apanho no chão o objeto.
* * *
O que é que isto tem a ver com meu relacionamento com Deus? Tudo.

É que Deus tem sabido dosar o meu sofrimento. Ele sabe exatamente até onde eu posso suportar.

No dia em que eu não puder mais juntar o objeto do chão, terei morrido. E por enquanto ainda não é o que Deus quer. Deus, sinto, ainda tem planos para mim.

Sendo assim, a fração de sofrimento que Deus está designando para mim está no meu limite.

Se Deus apertar um pouco mais o torniquete, eu morro.
* * *
Assim como Deus nos dá fração de sofrimento, dá-nos também fração de felicidade.

Durante quantas vezes em minha vida (inúmeras), Deus me presenteou com tais êxtases de felicidade, que estive à beira de explodir, de morrer de felicidade.

Mas Deus teve controle e meu deu muitas vezes a dose-limite de felicidade que eu podia suportar.

Deus tem limites e conhece os meus limites.
* * *
O máximo que eu posso suportar é essa tontura incapacitante que tira a minha locomoção, que subtraiu toda a motricidade de meus nervos e músculos e que me faz seguir em frente somente na banguela.

Se passar daí, faleço.

Sob certo aspecto, é muito bom conviver com o sofrimento. Quer-me dizer que sou uma criatura viva, não sou um objeto, uma pedra, um martelo. Faz-me sentir humano, isto é, uma criatura de Deus.

Esse meu sofrimento é suportado pela esperança. Esperança de dias melhores. Pode ser que um dia um médico caído do céu diagnostique essa minha tontura. E acabe com ela em três dias.

É essa esperança que me mantém erguido. Se eu não tivesse essa esperança, já teria soçobrado, como soçobrou esses dias o Tatata Pimentel.
* * *
Quando pararem todos os relógios da minha vida e a voz dos necrológios gritar nos noticiários que morri, em torno de meu caixão quero que meus amigos comentem que ali diante deles está um homem que sofreu muito mas que também foi muito feliz.

Que curtiu profundamente os momentos felizes e que suportou com estoicidade e galhardia os cruentos sofrimentos.

Que teve instantes orgásticos de ventura e dias, meses, anos seguidos de cruciante padecer.

Isto, afinal, é ser homem. Isto, afinal, me diferencia dos batráquios.

Mas enquanto não para o meu coração, estou aqui a cada dia que o sol desponta à espera do que venha pela frente, seja um dilacerante martírio, seja uma felicidade incomparável.

Para isto, vim ao mundo, para sofrer ou para ser venturoso."

(Paulo Sant'Ana)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Coração esquecido


Hoje, a solidão tomou conta de mim. Encontrei-me sozinho com um coração que por hora, foi esquecido. Foi esquecido de mim, das minhas certezas, da minha luz e seguiu sua jornada.

A referência que este coração buscava no meu jeito de ser não é mais a fortaleza que o protegia. Os muros desabaram, as bases ruíram e hoje, ele me reconhece frágil. Fui vencido. Mergulho no mais profundo silêncio e dentro de mim, percorre um coração solitário.

Ele, que já teve lugar seguro, hoje se lança na escuridão de um corpo ainda desconhecido. Coração que se perde pelos labirintos de nossa existência, acaba conhecendo lugares onde a gente nunca pisou. Por isso hoje, deixo-o perder-se de mim. Deixo-o percorrer lugares onde eu nunca tive coragem de chegar. Deixo ele percorrer as profundezas do meu ser. Lanço-o em destino incerto que sempre me amedrontaram e choro em silêncio ao vê-lo reconhecer em mim, lugares que ainda estão vazios. Lugares que ainda eu não habitei.

Hoje, não sei por onde anda este coração. Sinto-o dando gritos dentro de mim, como se quisesse ser encontrado novamente. Não quero esquecê-lo para sempre, nem seria humano abandoná-lo à própria sorte. Mas ele sabe que ainda há muito a ser explorado, há muito a ser conhecido.

Gostaría de estendê-lo a mão e conduzí-lo pelos mesmos caminhos visitados anteriormente, mas o deixo perder-se em novas descobertas para que ele, como Deus, reconheça em mim, lugares aonde ainda não cheguei, minhas maiores profundezas. E depois de ter retornado ao seu devido lugar, que ele possa revelar com a mesma sutileza que lhe é própria, terrenos onde posso fazer morada e revele à quem ali habitar, quem eu realmente sou.

(Gentil Buratti Neto)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Coisas impossíveis...

"Nunca desista de sonhar com coisas impossíveis. O impossível se revela à quem busca na fé um Deus maior que a pequenez da condição humana."
(Gentil Buratti Neto)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A minha mãe, e os óculos


Você já parou para pensar o que alguns objetos nos diriam se eles tivessem essa oportunidade? Foi o que me perguntei hoje pela manhã quando vi os óculos que minha mãe deixava sobre a mesa. Enquanto tomava um café apressado para não perder a hora, fui convidado a desacelerar o ritmo quando descobri que eles me observavam naquele momento. Talvez, ao dormir ontem à noite, despretensiosamente, minha mãe tenha os deixado ali, naquela posição, daquele jeito, sem se dar conta de que eles estariam a me observar enquanto tomava o meu café.
Fiquei por alguns segundos sem saber o que fazer... Tomar o café, ou dar atenção aos óculos? Parece ser estranho não é mesmo? A sensação que tive era a de que ele também quisesse participar daquele momento, igual fazem os cãezinhos quando ficam a nos observar enquanto fazemos nosso lanche, atentos a um pedaço de pão que cai de cima da mesa.
A feição daqueles óculos era transparente. O rosto de minha mãe ainda o privava de participar de suas expressões. E nessa hora, pude reconhecer nele, o pedido para voltar a ser novamente o contorno do rosto de minha mãe. Eles pareciam tristes e solitários enquanto, naquela transparência, não existia a cor azul dos olhos que eles protegiam e a única expressão que eu via, era de abandono.
Sei que pensava alto demais, mas o que eu via ali, não eram apenas dois pedaços de vidro unidos a uma armação de metal. Eram as expressões suaves que minha mãe tinha enquanto me olhava. Os óculos já eram parte do que ela era. Assim como os óculos refletiam o silêncio do abandono longe dela, ela também carecia de expressões enquanto não os tinha.
Terminei de tomar meu café, levantei, e fui até o seu quarto para deixar os seus óculos na cabeceira de sua cama. Ainda assim, não seria este o lugar mais correto que eles deveriam estar, mas já não se sentiriam sozinhos... A minha mãe, e os óculos.
(Gentil Buratti Neto)